terça-feira, 27 de agosto de 2013
JESUS RE-AVALIADO
Se, em Jesus, Deus está totalmente presente, sendo Jesus,
como humano, não ‘totalmente’ Deus, o mesmo – gradualmente diferente – vale
para nós. Razão pela qual o ‘divino’ está em tudo e todos e, para servir a
Deus, só nos resta construir relações respeitosas com todos os seres que
pavimentam nosso caminho. Entre as religiões se impõe, incondicionalmente, ‘diálogo
e mútua cooperação’. Porém, de formas variadas: com os ‘judeus’, com ‘profundidade’;
com os ‘islâmicos’, com ‘amplidão’; com religiões orientais, superficial ou
limitadamente; com outras religiões ‘cristãs’,
de forma ‘ampla e profunda’; e entre cristãos católicos, com respeito e
complementariedade.
quarta-feira, 7 de agosto de 2013
SER PAI – NOBRE VOCAÇÃO
Ninguém existe isolado, todos somos eco, reprodução de
tantos - de gerações, de milênios, de poeira cósmica, cultural, psíquica e
espiritual. Fazemos parte de uma incontável multidão que, prévia e longamente,
ensaiou o caminho no qual, hoje, nós andamos. Cada gênio, artista ou santo como
também cada mendigo pinga como que do teto da história e escorre pelas paredes
da humanidade.
Por sermos uma ’legião’ (Marcos 5,9), a história caminha a
passos lentos, embora determinados. Mais que simples elemento na soma de uma
multiplicidade, somos parte de uma admirável ‘unidade’, complexa e
interconectada. Não há ‘pai’ ou ‘mãe’ que, ao mesmo tempo, não sejam filho ou
filha, irmão ou irmã, etc. Em cada um, há algo de muitos, uma estranha e fecunda
diversidade.
Se tantas gerações não tivessem existido, Jesus não teria
sido, nem eu, nem você. Na história é impossível mover-se independente das
ondulações de uma longa tradição; tampouco fora de uma corrente imensa, em que
a contribuição de indivíduos e coletividades é promissora ou ameaçadora. Não há
planta sem raízes, ninguém se desliga do outro. Somos ‘Corpo’ de Cristo.
Em Jesus, como em nosso ‘pai’, moram outros que, por sua
vez, refletem o ‘Outro’. Por que, então, buscar fora ou lá em cima, no céu, Aquele
que, de todo ‘pai’, faz seu templo? Foge de outros o refém de si mesmo. Nada de
venerar um Deus nas alturas, se fomos advertidos que a única maneira de
respeitá-lo é valorizar a nós mesmos nos outros, servindo aos que nos são
confiados.
Aprendi de ‘pais’ a lição: o que dos outros espero, em mim
cultivarei. Todo gesto de amor, compaixão e solidariedade é vida a fecundar-se.
Beneficiado por gerações passadas, me reconheço devedor das futuras. Portador
de dons, multiplique eu a graça dos que a mim se doam, navegando nas ondas de
um imenso mistério. Parabéns aos Pais: recriar, transbordar é a vocação.
terça-feira, 18 de junho de 2013
ACOLHER O DIVINO
No melodiar da natureza, Deus nos fala;
em estertores vitais, ele se faz dádiva;
no silêncio do tempo, é oferta.
Deus é acolhido em gestos de respeito;
é bem servido por nossa admiração;
deixa servir-se por encontros fraternos.
Reza insistente o desvaloriza,
pedido repetido o decepciona
e louvação formal o põe em fuga.
Dialogar é abrir-lhe uma porta;
na condição de ‘Outro’, nele cremos;
ao admirar o belo, o acolhemos.
Aprisiona-lo em devoções, é traí-lo;
limita-lo à uma crença, o humilha;
dar-lhe morada fixa é mata-lo.
É na fé solta que ele fica à vontade;
em lidar bem com fatos, é servido
e no imprevisto se faz dádiva.
No pulsar do Universo, ele sorri;
clama em protesto de recém-nascido;
em formas de despedida, é abraço.
Na poesia, Deus é leveza de amor;
na arte, se revela criatividade
e na música, encanto universal.
IMERGIR NO DIVINO
Viver
é fazer uma travessia. Ora, o realizo em um lamaceiro, meus pés se tornando
pesados, imprimindo cansaço ao andar; ora, ando sobre espuma, e a travessia se torna
leve. Acontece também que, não raro, ando em pasto impregnado por água, e lá
vou eu me arrastando.
Viver é caminhada. Amarrado a meus problemas, canso.Quando,
livre de mim e imerso no ‘divino’, a travessia não pesa.Sereno, usufruo de
encantamento em um clima de paz.Posso viver, calculando a distância da
travessia. Aí, já no início, sinto o peso da caminhada.
Posso
também prender-me, antecipadamente, à chegada, sentindo-me envolvido por abraços amigos. Na
vida, o caminho não é tanto a estrada; é, antes, um estado de espírito.Hei de
viver agraciado pelo ‘divino’ - nuvem a
me abrigar – que me desprende de mim e me injeta agilidade.
Tocado por divino ‘sopro’ - livre de mim - sinto-me
encantado pelo que me cerca e acontece. Por tudo e todos, o ‘divino’ me atrai. Sim,
me inspira, me puxa e impele, me levanta quando caio. Nem o favorável nem o
desfavorável dão conta de me aprisionar. Nem o triste nem o alegre determinam
meu humor;nem o fácil nem o difícil me fazem rir ou chorar.
Parece,
não sou daqui nem dali; não me deprimo nem me exalto; não suplico nem insisto,
estou identificado com o viver. Sim, assumo o acontecer com seu partir e
chegar, seu pedir e agradecer, seu rir e chorar. Mãos divinas me conduzem, a
corda da vida se faz solta. O existir me alegra na tristeza, me torna
agradecido na perda. Encurto até distâncias, no tempo e no espaço, envolvendo,
desde já, o futuro pelo presente.
Não sou nuvem nem sol, mas aparência de leve neblina a
deslizar, elegante, na correnteza do ar. É o ‘divino’ que me atrai e empurra,
me identifica com diferentes, me iguala a opostos, me integra com os que me
cercam. Viver se torna leve e transparente; o caminho se dissolve. Já cheguei,
embora ainda distante; já cumpri meu papel, embora ainda no meio do caminho. Estou
em paz.
quarta-feira, 29 de maio de 2013
DEUS - PAI - FILHO - ESPÍRITO
Graças à fé no Pai, na vida feliz balanço,
algo, valioso para mim, assim alcanço.
Muito me alegro na condição de filho,
o Espírito me reveste de novo brilho.
Pai imprime nobreza ao destino,
Filho sempre me há de fortalecer;
o testemunho de ambos é valioso tino,
Espírito a todos há de engrandecer.
Fé na Trindade sempre me assegura:
o Divino Ser irradia ternura.
Feliz bem-estar na solidariedade,
Filho – Espírito – luz: amor é Trindade.
Em três, Deus, é abençoado poder:
faz que em natureza e convivência
a morte não seja só estremecer,
em tudo e todos suave inocência.
Em nossa fé, alegria e confiança;
crer em Deus gera bonança.
Pai é, acima de tudo, coração;
em Filho e Espírito suave união.
Na vida, Trindade é pura alegria,
coloca todos em clima de paz.
Em um e outro, dádiva à porfia;
de viver alegre, me torna capaz.
No dia a dia, minha fé é fortaleza,
Pai me orna com grandeza;
Filho me traz inspiração,
ao Espírito eterna gratidão.
TRINDADE
Tradicionalmente, quanto à Trindade, apelava-se à figura do triângulo ou de três fósforos acesos – três formando um só, diversidade na unidade. Tal expediente não corresponde às exigências da mentalidade moderna. Hoje preferimos dizer que Deus -Trindade nos é muito próximo, como o coração de uma pessoa amiga. Servem para ele os nomes: presença amiga, poder libertador, inspiração, parceiro na viagem.
Atualmente não sentimos tanta necessidade de demonstrar a existência e a natureza de Deus. Respeitamos seu mistério. Basta que reconheçamos, em nós, o divino. Nenhuma instituição ou religião pode ter o monopólio sobre Deus, sendo que a humanidade toda o admite e acolhe sem pretender idéias absolutas. Contentamo-nos com a abertura da confiança amiga, longe da aridez de ritos e tradições.
Jesus se fez testemunho exemplar, apresentando um Deus tão próximo e amigo a ponto de sentir-se na condição de filho frente ao Pai, possuído por seu mistério e portador – como toda pessoa – de uma riqueza infinita. Daí, sua postura de lutar por justiça e compaixão a favor de todos, de preferência em prol dos menos valorizados. Até os aparentemente indignos desfrutam dessa mesma filiação divina.
Esse jeito filial de Jesus, sabendo-se unido ao Pai e devedor de seus irmãos em serviço libertador, é o chamado “espírito” que nos guia no caminho da Boa Nova do Evangelho. Em vez de onipotência distante, Deus é amor compassivo. Nem merece ser abordado como Pai que está no céu, pois move-se na terra, em nosso coração e nas relações fraternas que construímos. Em Deus, somos templo do Espírito.
A fé no Deus ‘uno e trino’ não engrandece o próprio Deus e, sim, a ‘relação’ com ele. Dessa forma, crer na Trindade se há de fazer garantia de uma religiosidade sem moralismo e fonte de solidariedade; evita que a Igreja, mais que instituição, seja assembleia do Povo de Deus’. Não há oposição discriminatória entre clero e laicato, a fé na Trindade faz da Igreja uma universal fraternidade.
REINO DOS OPOSTOS
Surpreendente o meio em que vivemos,
estonteantes experiências virão.
Nunca o bem existe sem o mal,
tampouco há justiça sem desordem.
Que seria da virtude sem pecado;
luz teria graça sem trevas?
Valeria a saúde sem ameaça de doença,
alegria sobreviveria sem tristeza?
Há eterna dependência entre opostos:
encanto do dia se deve à luz-escuridão.
Juventude sem velhice é um paradoxo;
santidade sem pecado algo estranho.
Se o bem é conquista, o mal é a realidade;
pela estranheza da polaridade a criança se afirma.
A realidade transcende nossa consciência;
minhas convicções incluem ambivalências.
Não há harmonia sem paradoxal oposição
como é impossível ter ideias imutáveis.
Juventude fechada em si
terá a aridez da velhice sem sonho.
terá a aridez da velhice sem sonho.
Se a realidade é a soma de dualismos,
a diversidade é a alma da música e da arte.
O feio e o belo pertencem à mesma realidade,
como o dia e a noite são inseparáveis.
Ordem, retidão e moralidade são devedores
de anormalidade, ignorância e confusão.
Partes integrantes da mesma unidade
somos gritante diversidade.
Como na verdade, não raro, sinal de inverdade,
não progredimos sem alguma derrota.
Quem não assume suas fragilidades,
não transforma desafios e promessas.
Viver é acostumar-se ao incerto,
familiarizar-se com experiências novas.
Sem o vazio dentro ou fora de si,
não há esforço de crescer.
não há esforço de crescer.
domingo, 19 de maio de 2013
PENTECOSTES - O ESPÍRITO
Pelo
‘Espírito’- hálito, sopro - Deus se faz entrelaçado com a criação e envolvente
com a história; nunca ensimesmado, porém sempre como dinamismo de amor a elevar
e integrar, a transformar e libertar. Ao Espírito, devemos nossa identidade no
esforço de, maleáveis, nos soltarmos e nos comunicarmos, sem nos impormos como
donos do que quer que seja. O Espírito, pois, nos preserva das artimanhas de
poder, de isolamento e de exclusão, mergulhando-nos em ondas de pertença
responsável.
O
Espírito paira sobre o Universo e, nele, se insere sem aprisionar-se no mais
forte ou perder-se no mais frágil ou paradoxal. Na condição de Sopro – Ruach
-
ele sustenta, integra, inova,
transforma. Paciência para com resistentes, questionamento perante teimosos, o
Espírito estimula acomodados, reconduz extraviados, encanta os puros. Sim, como
Espírito, Deus se aloja no vazio inspirador de uma criatividade inesgotável.
Ele
abraça grandes e pequenos, santos e pecadores. O Espírito é prenhe de suavidade
e ternura, de tolerância e vigor; educa na abertura, valoriza colaboração a fim
de nos tornar fatores de acréscimo e de comum-união. Familiariza-nos com um
olhar de compaixão, com generoso empenho de responsabilidade e de
transformação, visando a harmonia no bem comum - sempre paz e solidariedade na
convivência.
O
Espírito confronta com perguntas: Por que
ser religioso, se isso não produz dinamismo de elevação? Por que cultivar
formas de espiritualidade, se não fazem crescer em cidadania? O Espírito
Consolador nos familiariza com doação e confiança, com perseverança na luta; suaviza
o que é duro e quebra o que é rígido; amplia a visão que se apega a ‘coisas’ e
acresce a sabedoria de quem tece ‘relações’.
O
Espírito faz corrigir toda desfiguração de Deus e inspira dinamismo de inovação.
Inocula criatividade no ser e crer, no viver e morrer, envolvendo-nos no amor
que confraterniza. Dessa forma, superamos o medo da escolha, tornando-nos responsáveis
frente a toda insegurança. Ainda nos liberta da rotina e nos estimula a tomar
as rédeas da vida nas próprias mãos. Assim, nos estimula a imprimir rumo
saudável ao existir.
INTER-RELAÇÃO
Nada é só ‘ente’; algo em si, somente; nada é só ‘organismo’,
tudo é também ‘sistema’, em uma complexa relação de ‘pertença’. Abaixou a
umidade do ar, nossa pele resseca; garganta e nariz pagam a conta. Hidratação
diminui, nas vias respiratórias, incômodos se manifestam e até enfermidades.
Cada ser, neste mundo, faz parte de um grande
‘todo’ harmonioso que, pelos antepassados, era visto como uma ‘divindade’ (GAIA
– Ser Vivo, espiritual). Aqui, cada organismo, além de ter um meio ambiente
‘interno’, com órgãos e tecidos, está inserido em um meio ambiente ‘externo’.
Aqui, o ‘todo’ é mais do que a soma de
suas partes, sendo que estas, não raro, são capazes de regenerar o ‘todo’ do
organismo. Por outro lado, temos de compreender tudo qual fenômeno dentro do ‘contexto’
de um todo maior.
De
fato, as células se combinam para formar ‘tecidos’; estes formam ‘órgãos’ que,
por sua vez, plasmam ‘organismos’ dentro de sistemas ‘sociais’ e de ‘ecossistemas’.
Há, assim, organismos dentro de sistemas ‘sociais’ e ‘ecossistemas’
(hierarquias – não rígidas). Se foi escrito que O Espírito paira sobre as águas – sendo a água o símbolo da ‘Criação’
– concluímos que tudo e todos são impregnados pelo ‘divino’, pelo mistério de
Deus, sendo morada ou portador do divino. Razão pela qual temos de zelar por
tudo que nos cerca, cuidando bem do que trazemos dentro de nós. Somos, pois, espelho,
imagem do sagrado, do divino. Filhos do Eterno.
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