sexta-feira, 20 de abril de 2012

FAÍSCAS RELATIVAS À PÁSCOA


A LEI DO PLANTIO E DA COLHEITA

“Recentemente plantei alguns caroços de milho. Cresceram bem e me deram muitas espigas.  Separei um dos pés de milho que produziu duas lindas espigas. Contei os caroços de milho em cada espiga e descobri que, a primeira, havia 570 grãos e na segunda 748. De uma única semente, colhi 1.318 novos grãos. Assim funciona a Lei do Plantio e da Colheita”.
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Tudo supõe o ‘de onde’ ou ‘de que’ – uma origem ou causa – e essa, por sua vez, implica ‘gratuidade’ – algo ‘novo ou mais’ - no efeito. A causa, pois, é algo maior do que aparenta ser; isto é, ela tem em si o ‘transcendente’. Assim, o grão de trigo, ao cair na terra, produz algo diferente. Razão porque o ‘fim’ de si - a morte - pode ser algo mais que o ‘nada’. Eis o admirável em tudo que nos habita e nos cerca. Nós sabemos que somos de Deus. (1 João 5,19)

Conclusão: a morte, como fenômeno decisivo, é prestação de serviço, algo rico em sentido. Ou seja, até na morte há algo ‘sobrenatural’, isto é, algo ‘além de si’. De fato, a matéria do cosmos, ao nunca se alterar em seu peso global, já insinua que a morte não pode ser o decisivo, ou seja, é mais que só isso. A morte não reina. Impera, sim, no re-nascer, no permanecer, no ‘ex-istir’:  ser além de si. O morrer, no sentido de desfazer-se, o terminar definitivo, é algo que se contradiz. Em tudo há algo mais, o reviver, o supera-se; o ressuscitar é também natural, em sua dimensão de ‘mistério’.

Tal fenômeno se impõe como essencial à própria pulsação do Universo, o segredo de todo existente, dentro de limites - surpreende em seus efeitos. Portanto, crer na chamada ‘ressurreição’ parece razoável - potencialidade inesperada contida em todo existente. O modo de se comportar, a médio e longo prazo, pode favorecer ou prejudicar a existência. Exterminar os entes  é impossível, fazê-los existir em outras formas parece natural. De todo jeito, a morte está sempre a serviço da transformação, jamais da destruição definitiva. Donos não somos desse mistério; nós o vivenciamos, admiramos e compartilhamos.

Nada, portanto, se ‘desfaz’ simplesmente, mas tudo se transforma. Essa transformação não é algo fechado em si, mas está nas mãos de circunstantes. Certamente não para algo pior, mas sempre para algo diferente. É o que celebramos na Páscoa: o Cristo ressuscitado é o grande símbolo a representar o ‘divino’ na vida, cuja essência é um dinamismo transformador surpreendente, em que o igual é revestido do diferente. Isto, aliás, acontece desde o início da existência de tudo, que se apresenta no Universo.

Razão também porque a morte, por real que seja, está entregue ao poder da vida. O objetivo da celebração é nos conscientizar do algo ‘mais’, do divino em nós - a serviço do todo da Criação. Esta - em nós - respira e, de nós, dispõe para que Deus se afirme em nossa grandeza, partilhando seu ‘mistério’ que também é nosso. Páscoa é a grande festa dessa ‘gratuidade’ e da ‘responsabilidade’ do Cosmos, convidando-nos a colaborar para que a vida reine sem maiores obstáculos e com uma rica criatividade inovadora.

OPÇÃO PREFERENCIAL


Não raro, ‘pobres’ descobrem que o são, quando entram em contato com ‘ricos’. No passado, um povo de ‘escravos’ tomou consciência de sua condição, depois de conscientizado pela experiência de Moisés. Este sofreu rejeição e abandono e foi salvo das águas e da perseguição. Quando, sofredor, se viu espelhado no povo escravo, engajou-se a promover libertação dos excluídos. E eis que um grupo de escravos se tornou o ‘coração do povo de Deus’ – um Deus da libertação e do serviço (Ex. 3,7-10).

Sim, Deus nos quer fazer passar da servidão para o serviço. Estrangeiros e peregrinos, todos são chamados a viverem livres de dívidas. A terra é de todos e, nela, todos têm direito aos meios de - nela e dela - poder viver. O ‘Ano Sabático’ passou a dar descanso à terra, redistribuindo-a fora das relações de opressão. Ao longo do tempo, pois, a igualdade se ia desfazendo devido a guerras, roubo, catástrofes, enfermidades e, sobretudo pela prepotência no poder.

A urgência, no tempo de Moisés, era libertar as pessoas de um isolamento radical: sobretudo, viúvas, órfãos e estrangeiros, sendo a hospitalidade um dever sagrado (Dt 25,17-22). A instituição do Reinado se fez obstáculo a esse objetivo (1 Sam 8,14-18). Em uma sociedade fraterna, a propriedade tem alcance coletivo. O mesmo há de valer para uma Igreja; na hierarquia, os maiores se fazem servidores, para que todos sejam participantes ativos (Mt 20,26.28; Mc 10,43.45).

Um poder ‘centralizado’ se apodera dos bens, criando classes: oficiais, escribas, funcionários que passam a ser privilegiados e pagos. Razão pela qual os reis se apoderam dos bens, a fim de redistribuí-los ‘desigualmente’. (Algo assim acontece, hoje, entre clero e laicato em relações de poder e submissão.) Os profetas se encarregam de denunciar o desleixo do poder no trato com os pobres.

(Na Igreja – pela oposição entre clero e laicato - surgiram formas gritantes de exclusão.) A título de exemplo, Elias denuncia o crime de Nabot (1 R 21,1-29); depois, Amos denuncia as injustiças na Samaria  (Am 5,11-13), onde um povo explorado favorece a ganância dos ricos. Nessa linha, prosseguiu Jesus: o culto a Deus não consiste em ‘ritos exteriores e formais’, mas no amor que gera justiça, honestidade e solidariedade (Mt. 5,23s). Maltratar a pobreza, subjugar o povo é infidelidade à Aliança; a responsabilidade ‘social’ visa o bem das ‘pessoas’

Deus nunca se vinga nos ‘indivíduos’, como Jesus  lembra no caso do cego (Jo 9,2). Na prática, a salvação já não diz - genericamente - respeito à ‘nação’, mas aos indivíduos da nação ‘toda’. Estes merecem viver a fé em Deus no meio de um povo solidário e fraterno. No passado, a vigência da Sabedoria substituiu a missão profética; profetas foram substituídos por ‘mestres’ da lei e por ‘sábios’.

Jesus se tornou modelo, como Paulo lembra: rico, ele se fez pobre para nos enriquecer por sua pobreza (2 Cor 8,9). Não foi para ser servido que veio, mas para servir (Mc 10,45). Ninguém é feliz por ser pobre, mas quem se faz pobre; não é abençoado quem ‘é’ servido, mas quem ‘serve’ (Mc 10,45) (Lc 6,20-21) (cf Lc 1,52s; 4,18; 7,22; 14,21 (14.13); 16.22. (Contexto: cidades helenísticas.) (Em Mateus, o critério é sempre a atitude ‘ética’ (22,10).

Em seu todo, a Boa Nova não privilegia os que são pobres (Lc. 16,19-31; 19,1-
10). A conversão ao Evangelho não implica, necessariamente, uma dimensão econômica, mas uma nova avaliação dos bens: o bem de todos na comunidade (Atos 4,32). Prevalece a importância, não do ‘poder’, mas do serviço. O grande ‘desafio’ é colocar os bens a serviço de todos.  Sobretudo em Mateus, ricos e pobres têm de ser discípulos na escola de Cristo: ter alma de pobre, coração acolhedor, ter fome de justiça, ser artesão de paz, sofrer perseguição.(Mt 5,2-12).

A quem e a que devemos prestar mais atenção? Que lugares e rostos mais cuidado nos pedem? Há os que não contam muito, pois os ignoramos ou esquecemos. Dar-lhes atenção há de ser experiência de responsabilidade, de acolhimento e de encontros. Há pobres e inválidos em uma extrema precariedade, sem vida digna e sem condições de desenvolver capacidades latentes. São pessoas  sem perspectivas, que não contam, que dificilmente enxergamos e das quais nada se espera. Seu potencial de trabalho e de marcar presença tendem a desaparecer.  São encapsuladas por invisibilidade.

Podem até sucumbir a doença e morte, enquanto nós nos mantemos à distância. Assinalam um abismo sem fundo que cobrimos com nosso medo para, por eles, não sermos contagiados e incomodados, como se quisessem arrastar os que deles se aproximam. Não raro, nos deixamos intimidar por angústia, impotência e culpa, temendo horizontes desconhecidos e um desafio pesado demais. Ficamos distantes, nem ousamos abordá-los.

Porém, bastaria um pouco de coragem e uma ocasião de encontro para reconhecermos que, como nós, eles têm rosto, voz, dignidade, aspirações e esperança; enfim, uma história. Isto nos faria admitir que se trata simplesmente de irmãos nossos. Percebemos que não é tão difícil abrir espaço para eles. Nosso quadro de referência é limitado, frágil e inseguro. Espera-se de nós um passo de aproximação, um modo diferente de sentir e de avaliar, pois não se trata de uma ameaça de agressão.

É preciso evitar o jogo de ignorar para superar nossa indiferença, acolhendo o percurso do encontro, deixando-nos envolver pelas circunstâncias. Haverá uma ‘revelação recíproca’, em que cada um se assusta com as próprias reações, com a capacidade de se deixar conduzir pelo que se apresenta no momento. Haverá até leveza com riso. Trata-se de sinais que não enganam, conduzindo-nos a uma nova experiência convivência cristã. Tal aproximação impele os protagonistas ao diálogo, superando indiferença, resistências ou preconceitos.

Isto nos livra de  sofrimento, mostrando-se indispensável para vivermos bem e convivermos em clima de fraternidade. Por que aumentar tensões, cultivar distâncias, estreitar horizontes, resistindo a um gesto de ceder? Caso dermos conta de relativizar obstáculos, conquistaremos confiança, trocando fragmentos de história entre nós, suavizando laços dolorosos. Assim, lançamos o fundamento de uma aproximação integradora e solidária.

Passamos a partilhar sentimentos reprimidos, substituindo dores, resistências e tristezas por simpatia, solidariedade, amizade. Transporemos abismos, cultivaremos presença, voltaremos a falar e a decidir juntos, ajudando-nos na construção de um novo projeto. Assim, priorizaremos o outro,  sem nos fechar ou isolar em um objetivo ‘pessoal’. Somos, então, sensibilizados pelo que é prioritário na relação. Quem sabe, é nessa perspectiva que somos convidados a avaliar a proposta da vivência crista: opção preferencial pelos pobres e excluídos.

Nessa categoria cabem muitos, seja no âmbito da vida social e da prática da fé.  Primeiro, os ‘sem’ meios de uma sobrevivência digna e de uma cidadania justa; segundo, os que não se enquadram nos critérios da moral burguesa:  homossexuais – casados ou não - descasados e recasados, criminosos, vítimas de preconceitos, mulheres, etc. Terceiro, os discriminados na religião: sacerdotes celibatários, padres casados, mulheres em geral. Em clima de aliança, somos intimados para alcançar o que liberta e libertar e lutar por uma coletividade fraterna e participativa. A Igreja de Cristo é a Igreja do ‘povo’.
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Frei Cláudio van Balen

(Fonte:Ph.Demeestère,J´ai vu la misère de mon peuple,
CHRISTUS– avril 2012, pp 177-186)

sábado, 7 de abril de 2012

FÉ NA RESSURREIÇÃO

Ninguém crê sem alguma dúvida que visa aprofundar a fé. Não há exceção. È preciso ver para crer. Sem algum sinal, não é possível consolidar relações, sobretudo as de fé. A razão é simples. Não se trata de crer em ‘coisas’, mas em ‘pessoas’. O núcleo da fé não é uma verdade teórica, mas uma relação de carne e osso a envolver eternos iniciantes. Ali, navegamos nas águas turbulentas da limitação humana frente a perdas e decepções, em ensaios com recuos e avanços. Em Deus vivemos. Abrigados nele venceremos.

“Feliz quem crê sem ver”. Em termos. Crer é sair de si, ampliando os próprios horizontes. Requer-se um impulso que nos mobilize, uma segurança que nos encoraje. Entre nós, a ‘gratuidade’ – mesmo o amor de mãe – precisa revestir-se de algum sinal a nos confirmar. Não se ousa fazer, no escuro, um gesto de entrega, unindo vidas, conjugando interesses e entrelaçando pessoas. Nada mais natural: “Se eu não puder perceber o que mais marca a pessoa, como poderei crer?”. Deus é carne e osso, fragilidade e pujança na História.

Tomé representa os discípulos. Quem sabe, ele era o mais realista. O Mestre, o Amigo do peito, morreu. A turbulência de emoções empurra todos para um esconderijo. Decepcionados e tristes, sentem raiva das autoridades que não quiseram compreender Jesus e o rejeitaram como rebelde suspeito. Agora, os discípulos temem ser ridicularizados. Além do mais, sentem vergonha de seu próprio comportamento. Mostraram-se covardes. Nos sinais, o aplaudiam. No julgamento e na cruz, o abandonaram. O que lhes restará? O confronto com as chagas, o compromisso solidário. Eis o sinal da vitória.

Quando outros nos tornam a vida ameaçadora, fica mais difícil querer bem às pessoas e crer em Deus. Há situações que nos causam vergonha. Preferimos subtrair-nos ao convívio enquanto a decepção e a dúvida nos vão corroendo. Fechados em nós mesmos, trancamos as portas. Quando nos permitimos a tarefa de reavaliar as coisas, lentamente nos desarmamos. Foi o que aconteceu. As mulheres foram mão na roda. “Chega de tristeza! A morte não anulou Jesus!” Um dos nossos, ele ensaiou e representou Deus entre nós!

Um processo se iniciou. O Jesus idealizado - irreal - cedeu lugar ao Jesus real - com chagas - atestando seu devotamento frente ao Pai e a favor das pessoas. Alguém, assim, não é absorvido pela morte. O testemunho de vida – com lições e gestos com grande poder de convicção – tornam Jesus mais vivo que nunca. O sentimento de culpa se evapora sob a chama do amor que o Mestre lhes oferecera. A paz retorna. A coragem se restaura. A mesquinhez se desintegra. A morte... Ora, a morte bem sofrida é garantia de vida vitoriosa.

A dúvida serve para aproximá-los da realidade. Sua pequenez humana se faz ponte de acesso ao grande mistério. Morto o Mestre - o Amigo está mais vivo que nunca. O entusiasmo se renova. Ao tocarem na ferida, rememorando sua solidariedade ímpar, sentem-se redimidos. Uma liberdade estranha toma conta de seus corações. O Espírito de Jesus se instala nos discípulos, com clareza e vigor incomuns. O conjunto da caminhada de Jesus, seu testemunho de vida lançam nova luz sobre a frágil vida humana. Mais que nunca, se reconhecem abrigados no amor divino. Agora, são mais, muito mais que parecem. Estão a serviço da reconciliação e da paz. Testemunhas da Vida.


Deus: mistério da Vida a se fragmentar na criação; nela e por ela, se afirma, sofrendo a dinâmica da mesma que é ele em pessoa. Revela-se como Deus à medida que a criação evolui e as pessoas assumem a vida em uma perspectiva de fé. Deus sempre está no comando, porém sem interferir nem organizar previamente a história nem para socorrê-la milagrosamente.


Basta que seja Deus. Não vos perturbeis. Confiai!


Morte é Passagem.

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TOLERÂNCIA

TOLERÂNCIA – VALOR MAIOR

Tolerância autêntica é pacificadora.
O apelo à tolerância, não raro, conduz à intolerância.


O ‘eu’ moderno com seu direito de ser o que ‘é,’ graças à tolerância, facilmente se torna fator de abuso, até para sua expressão coletiva em grupos, partidos, igrejas. O ideal é enfocar o ser humano como ‘imagem de Deus’, a fim de ser menos ‘eu’ - menos egocêntrico e mais pacificador na construção de relações.

INTOLERÂNCIA COMO RESULTADO DE TOLERÂNCIA.
O apelo à tolerância resultou da crueldade da violência em conflitos religiosos entre mil e seiscentos e mil e setecentos. Cada um devia ter o direito de professar a religião herdada ou escolhida. Trata-se de um dever difícil em uma convivência multicultural e, sobretudo, de pluralidade religiosa, porém evita agressões mútuas. No passado, a duras penas, a‘lei’ passou a garantir liberdade de religião.

Quem a desrespeitar, será apresentado ao juiz. A base do estado liberal é que a democracia respeita, cada vez mais, os direitos dos cidadãos. Estranho é que isto ameaça a tolerância. Daí, as iniciativas para garantir direitos de mulher e homossexuais, de idosos e enfermos, de consumidores, crianças, artistas e animais. Isso, não raro, é acompanhado de desrespeito e agressividade. O apelo à tolerância se reveste, com frequência, de intolerância. Faz lembrar o ditado antigo: “Se quiser paz, se prepare para a guerra”.

Não basta um sentimento de tolerância; requer-se um reconhecimento positivo de pessoas e valores. Se como ‘imagem de Deus’, merecíamos, em alguma época, todo respeito, atualmente precisamos merecer tal direito pelo que mostramos ‘ser’ – gente digna: pensar e decidir com respeito ao que cada um se propõe, sem exigências e influências de fora. Agir, em clima de simples ‘direitos’, não raro tem suscitado sentimentos e ações agressivos. Grupos se defendem, outros os socorrem em vista de um objetivo correto, através de uma luta política. Tolerância tem assumido formas de intolerância.

Por outro lado, ninguém se satisfaz de ser somente ‘tolerado’ por outros; desejamos ser positivamente ‘reconhecidos’, mesmo cometendo algum erro. Antigamente éramos aceitos - em teoria - como criados ‘à imagem de Deus’. É o que devia garantir nossa dignidade. Na modernidade, cada um havia de conquistá-la por - fiel a si - pensar e agir com autenticidade e independência, sem escravizar-se a fatores externos. Atualmente diferenças são melhor valorizadas. Cada um é único e singular, tendo de respeitar tal direito nos outros.

Agora, sou eu que dou formato a meu viver, porém, nem por isso, é uma forma ideal ou melhor. Se, na essência, somos iguais, na existência nos mostramos diferentes. A boa qualidade de meu viver é medida pelo valor das relações que construo, pelo modo como trato o meio. A ‘identidade’ não é algo dado, mas se forma em diálogo com outros e pela inserção na realidade. Reconhecimento da própria identidade por outros é decisivo para o desenvolvimento do verdadeiro ‘eu’. A base de tal reconhecimento é, por sua vez, meu comportamento pessoal, mais do que, como antes, a posição social.

Atualmente, graças ao poder de ‘leis’, o reconhecimento é tanto mais importante. A recusa do mesmo fere gravemente as pessoas, como mulheres, crianças, negros, homo´s e deficientes. É algo como opressão e intolerância. Por mais que as pessoas – únicas - continuem diferentes, há fatores que valorizam todos, sem distinção. Tais fatores reclamam nosso respeito. Mais do que simplesmente nos tolerar – tolerância como dever ‘legal’ é pouco - temos de nos respeitar, honrar e até apoiar. Tampouco é suficiente uma simples tolerância - fruto de nosso ego adulto - como mérito pessoal. Porém, mais do que mero fruto de um direito, tolerância há de ser uma ‘dádiva’; do contrário passa a ser algo insuficiente, inautêntico. Até pessoas que dificultam a vida alheia merecem tolerância. Se devemos aprender a perdoar outros, para com nós mesmos temos de ter paciência nas falhas que cometemos. De fato, tolerância tem tudo a ver com a capacidade de ‘perdoar’ outros e a si mesmo.

Já, no século 16, Erasmo dizia a Lutero: A tarefa de sábios não é discutir, mas repartir sabedoria, partilhando a palavra. Tolerância é mais do que um direito ou dever, mais que um meio em vista de algo diferente. Acima de tudo, tolerância é própria dos ‘amantes da paz’. É uma virtude. Porém, o que me faz amante da paz? O ‘eu’ não há de ser sua própria medida; ou seja, o eu não é referência de aprovar ou desaprovar o que ‘o outro’ há de ser. Evidente, há pessoas incapazes de boa convivência. Em tais casos, a ordem ‘jurídica’ há de intervir e medidas devem ser tomadas. Como exemplo, temos a invasão de um país por outro com dominação ampliada, e também terroristas suicidas ou incendiários e agentes poluidores. Nesses casos não cabe intervir pessoalmente. Não me posso fazer medida de mim, reduzindo o outro à ideia ou à medida que me convém - do que eu aprovo segundo meus conceitos, minha verdade, minha família, minha religião, minha igreja – meus valores ou visão de vida.

Para me tornar amante da paz, é claro que tenho de conter meu pequeno ‘eu’; e, ao me esvaziar de mim, me faço mais aberto à realidade, mais receptivo frente ao outro, aos ‘diferentes’. Compete a mim olhar ao redor, sem logo exclamar: ‘Que beleza!’ ou ‘É crime!’ Só dessa forma, me protejo contra julgamentos apressados e parciais – e, portanto, contra intolerância. Farei bem por me inspirar na verdade de que Deus faz o sol surgir sobre bons e maus. O mesmo, me cabe, seguindo Jesus: oferecer uma nova orientação aos que vão ao extremo. É preciso me convencer que nem sempre disponho de uma reação adequada. Isto, de fato, é o início do amor à paz.

Longo pode ser o caminho para, dessa maneira, soltar-me de mim. Nossa fé cristã, em tempo de Páscoa, nos pode inspirar. Jesus precisou cair de joelhos, esvaziar-se de si, abraçando a morte na cruz. Por isso – lembra São Paulo – Deus o exaltou para que, em nome dele, todo joelho se dobre. Segundo Nietsche, Zaratustra falou: “Inicia como um camelo: paciente animal de carga, a socializar-te na própria cultura. Transforma-te, assim, em um leão: de tudo que aprendeste como camelo, toma uma distância crítica, superando o que já não queres aceitar por não corresponder a teus desejos e ao que não desejas para outros. Dessa forma, passas a criar teu próprio mundo e, juntamente com outros, quem sabe, ‘nosso’ próprio mundo. Isto implica algo conflitante e nada fácil: dar a si mesmo o direito de criar ‘novos valores’.

Simplesmente limitar-se a protestos, isso ainda não é heróico nem saudável ou construtivo; não passa de intolerância. Quando o leão chega a concluir esta verdade, se inicia a transformação em criança. Se não vos transformardes em criança, não herdareis o Reino do Céu. Supera-se o rancor contra o mundo e si mesmo, e sela-se a paz com a vida. Reconhece-se que até o sofrimento, que fazia desvalorizar a convivência, pertence ao coração da vida. Nenhuma forma de sofrimento justifica condenar o mundo. A criança em nós provoca um sim a tudo que nos tem acontecido; e reconhecemos: ‘Eu tenho batalhado a fim de, um dia, possuir um coração acolhedor e ter as mãos livres para abençoar’.

O papel do ‘eu’ amadurece em um modo de ser, inerente à essência da tradição religiosa. E eis que – em vez de relativizar verdades – crescemos em uma abertura respeitosa frente ao mundo, tornando-nos capazes de uma amorosidade de paz e de proveitosos cuidados em prol de outros. Apropriamo-nos de uma nova e sólida perspectiva que sintoniza nossa vivência do mundo com uma visão mais clara, tanto da realidade como da vida interior. Enfim, somente quando nos esvaziamos de nossa pequenez - deixando o divino renascer e evoluir em nós – liberta-se a ‘imagem de Deus’ em nós. Torna-se, então, possível de adotarmos amorosidade, gentileza e disponibilidade amiga. Se tolerância ainda não é pacificação, pacificação é sempre tolerância.
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(Fonte:Ilse N. Bulhof, Ware tolerantie is vredelievend,
em SPELING, 2/96, pp 21-26)

sábado, 31 de março de 2012

ESPIRITUALIDADE DO LIMITE

Em natureza e cultura, o que semeamos ou plantamos, tudo cresce, permanece e se desfaz dentro de limites. Gostaríamos que fosse sem limite o ‘tempo’ da infância, da velhice e de outras idades? Saberíamos tolerar um ‘espaço’ sem limite? Desejo suspeito que ninguém daria conta de cultivar sem prazo. É o ‘vir e ir’ que dá viço ao existente, sabor ao viver e conviver. Tudo se inicia e, um dia, se encerra. Também esta reflexão só vai prestar serviço nos limites dessa mesma dinâmica. Esta é a verdade: fator de equilíbrio e de progresso é o ‘limite’.

No equilíbrio de natureza e cultura, tudo e todos se apresentam relativamente ‘equilibrados’ dentro dos limites que lhes cabem. Até o maior milionário e o pior ditador, o papa mais aplaudido e o presidente mais combatido, reconhecerão, um dia - e terão de assumir - seus limites. E mesmo que seja tarde, também isso pode ter algum proveito. Eis o que garante, basicamente, a harmonia no existir. Deslizamos em cima de ondas, ora em seu início ou crescente, ora em seu topo ou decrescente; e isso, um dia, em seu término que, por sua vez, dará lugar a algo ‘novo’. Continua válido o antigo ditado: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.

De fato, impérios se foram, reinados se desintegraram, terras apareceram e se desintegraram como outras surgiram. Nada ou ninguém sempre existiu nem poderá durar para sempre. ‘Tudo com limite’ é a regra do ser, do fazer e do usufruir. A necessidade de um ‘limite’ vale para natureza e cultura, para fé e descrença, para amor e ódio, para trabalho e descanso, para sol, estrelas e terra, para vida e morte. Se em algum setor há exagero – medida desrespeitada – alguma represália haverá, uma vez que a realidade, complexa, está globalmente interligada.
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O que nos inquieta é o imprevisível-incontrolável como inerente ao ‘limite’. Quanto ao ‘tempo’ não controlamos sua ‘medida’ nem seu ‘momento’, que ora nos detêm, ora nos impelem ou, então, simplesmente nos deixam passar. Quanto ao ‘espaço’, é mais fácil avaliarmos o mesmo, se seu limite é de ‘abertura’ ou de ‘fechamento’, de repulsa ou de acolhimento. Segundo essa situação, buscamos segurança, nos ‘detendo’ no lugar ou nos dirigindo ao que está ‘além’. Assim, a porta do escritório, ora nos abriga onde estamos, ora nos convida para ir adiante. Portanto, somos nós que podemos ‘dispor’, permanecendo onde estamos ou nos dirigindo para fora. Bem mais complicado é o limite do ‘tempo’. Este tem algo de ‘ameaçador’, no que dura - e se ‘impõe’ - como no que ‘foge’, fazendo-se limiar-convite ou direcionamento ao ‘novo’. De fato, à medida que o tempo avança, ele pode libertar, enriquecer ou pode vir qual assaltante na noite. O limite do tempo, portanto, se subtrai ao nosso perfeito ‘domínio’.

Somos capazes de usar o tempo, ajustando seu limite, porém sempre de novo o mesmo nos escapa. Tem algo da correnteza do rio: podemos acompanhá-la, mas nunca deixa de correr à nossa frente. Brigamos também com o relógio, cujo tempo sempre nos dribla, prosseguindo sereno e teimoso, nos absorvendo. O passado aumenta, o futuro encolhe. Aqui, não há segredo para dar uma escapada ou para se enganar. Nascer é envelhecer, viver é morrer. Tempo digerido é morte abraçada. Um eventual remédio para escapar seria, por sua vez, um tormento, pois tempo sem limite seria a tortura da ‘mesmice’.

A medida é sempre e universalmente da responsabilidade de todos. Também no caminho da espiritualidade se impõe a variação do limite como – em determinadas circunstâncias - o sol perde seu fulgor e as estrelas seu brilho. Por ‘falta de limites’, colhemos enfermidade, injustiça, guerra, desequilíbrio ecológico - inundações, seca, fome - desrespeito e toda forma de servidão. Resultam do exagero em posse ou carência, em poder ou escravidão, em fraternidade ou injustiça. No auge da floração, se anuncia o limite. O ruim é haver antecipada interrupção, como em formas de desentendimento, violência, desastres e surpresas climáticas. É inevitável: o dia virá em que o telhado cairá. Porém, o modo do desfecho, em nada, nos é previamente comunicado.

Ausência de surpresa é ‘monotonia’, sem lágrima no olho, sem chama no coração. Tempo sem limite é alegria sem surpresa e velhice sem inovação; é uma parábola sem conteúdo e sorriso sem expressão. Apesar de tudo isso, sonha-se com o tempo ‘sem limite’, porém como não há nenhuma narrativa sem fim, para todo exagero está reservado um desfecho negativo. Grudado na alma está o desejo da imortalidade, ao mesmo tempo que apavora por seu vazio. De fato, o sonho do ‘sempre além’ pode privar da atração do ‘para sempre’, do eterno. É preferível substituí-lo pelo momento indomável do ‘agora’ – em que vivemos como simples flor. O limite universalmente imposto é convite para nos exercitarmos em uma liberdade e solidariedade responsáveis.

Se no auge da floração, se anuncia o limite, uma certeza se impõe: ‘O amor de Deus é sem limite’, como também nosso aperfeiçoamento espiritual há de sê-lo. O bem-estar de tantos, como também suas necessidades, nos conscientizam de limites. Dessa forma, se nas ‘relações’, agora, somos convidados a ‘obedecer’ (- fazer-se atento, disponível-) uns aos outros, é no sentido de abandonarmos parcialmente o ‘poder’, investindo-o melhor na ‘autoridade’ (-augére= fazer crescer-). Nesse contexto, o limite se coloca serviço do ‘bem’, o que resulta em benefício de nossa convivência. Muda a relação, aperfeiçoa-se o efeito.

Enfim, o que nos resta é aprendermos a nos deixar seduzir pelo ‘limite pacificador’, quer trabalhando ou descansando, quer aniversariando, brindando ou viajando. Viagem é a vida, somos nós o ponto de partida e de chegada.

sexta-feira, 16 de março de 2012

POR FALAR DE DEUS ...

Edmundo, criança ainda, foi abandonado pela mãe e maltratado pelo pai. Tornou-se morador de rua, em meio a toda forma de violência.

Certo dia, sentou ao lado de um mendigo em um velho banco. O ‘senhor Leo’ se fez amigo e o instruiu na capacidade de ler. Bem mais tarde, reconheceu que ‘sentou ao lado de Deus’. Pouco a pouco, ele se reconciliou consigo. Aprendeu que o sofrimento, sendo uma lembrança, nunca deve ser uma ‘ferida’.

Edmundo se fez amigo da história de sua história. Esquecer o passado, isso não conseguiu, mas cresceu em dignidade interior.

Mais tarde, já casado, assumiu a missão de testemunhar o milagre de sua vida em escolas e cadeias. Seu testemunho ajudou muitos para abandonar o mal e seguir pelo caminho da compaixão.

Mostrou que “Deus é maior que nosso coração” (1 Jo 3,20).

Todos temos uma centelha de Deus em nós. Nas comunidades da Igreja e nas instituições estatais, passamos a abusar facilmente do poder quando nos movemos em estruturas hierárquicas e nos projetamos como pessoas intocáveis.
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Se o sentimento é a linguagem da alma, quem sabe, Deus é a pele de minha emoção. A todo momento, ele me testa no confronto com desafios que me envolvem, questões que me perturbam.

Sinto uma presença amiga que, sorrindo, me confirma e, rindo de si, zomba amigavelmente de mim.

Deus... Minha inspiração ele é. Ressoa na superfície e no íntimo do que passo e sinto, temo e acolho, avalio e realizo.

Sim, é Deus, em mim, que aprecia, critica, elogia e relativiza o tanto que faço e deixei de fazer. Até parece que ele é Anjo de Guarda que, escondido e atento, me socorre, adverte e fortalece.

Sua luz aparece no que há de nobre em mim e no que, às vezes, avalio como dispensável. Parece que , em mim, há algo de Deus que, volta e meia, ri de si e foge de mim. Convence-me de que estou a serviço dele.

Um tanto assustado, o sinto brincar comigo para incluir outros em seu abraço. Aí, querendo ou não, só me resta valorizá-los.

Sem nada fazer – assim me parece – tropeço em Deus e, entre lágrimas e risos, ele me faz sentir minhas limitações e meu valor.

Sem o perceber, me vejo sorrindo e sinto um afago seu. Reconheço o quanto ainda sou o que não devo ser. Mergulho dentro de mim e pisco para Deus; e lhe dou razão pelo quanto ainda se frustra por investir tempo e energia em pessoas como eu.

Só me resta perguntar: Será que eu... sou eu mesmo? Será que Deus é, de fato, o que eu imagino?

Não raro, me sinto em um tipo de circo, em que há leveza em clima de brincadeira. Mas aí vem outra pergunta: O que ele mais quer é que eu aprenda a brincar?

Vai ver que o Reino é dos que cultivam jocosidade. Deus, então, é o que há de mais sólido e de mais leve em mim, embora paradoxal.

Urge que, no fim do dia, eu reconheça - após algum êxito e fracasso - “FOI-SE, ESTÁ FEITO; É BOM ASSIM”. Em paz, concluo: ‘Pronto’.

Eis algo essencial: Em vez de ir em busca de Deus, bem farei em me deixar encontrar por ele. Não estou sempre grudado a seu mistério? Mais do que invocá-lo, convém reconhecer-me
acolhido em seu amor.

Em vez de eu mesmo me colocar sob seu olhar, basta sentir-me envolvido por sua ternura. Por que gastar energia para andar na sua presença? Antes, eu me sinta como um nenê colado ao peito de sua mãe.

Afinal, Deus é o lado de dentro de mim e também o que se agita do lado de fora. Ele é qual convite: “Por favor, me acolhe como mistério maior que te impregna e envolve”.

CAMPANHA DA FRATERNIDADE

SAÚDE PÚBLICA

Todo cidadão tem direito à saúde. Desde o início, cristãos se fizeram promotores da dignidade de todo ser humano no setor de saúde. Com o passar do tempo, o poder público assumiu como um dos seus objetivos primordiais: cuidar da prevenção e promoção da saúde. Em nossos dias, lamentavelmente, o proselitismo político e religioso ainda tende a transformar serviços de saúde popular em interesses eleitorais e institucionais.

Além disso, a indústria médica, não raro, visa resultados financeiros e particulares. Ao mesmo tempo, o poder político usa os meios de acesso à saúde –para fins eleitorais (ambulâncias). Acontece também que a autoridade política zera o déficit público em vez de investir na saúde do povo - objetivo essencial.

Na presente Campanha da Fraternidade, o objetivo é pressionar comunidades e indivíduos para zelar pela saúde, conscientizando e estimulando o poder público a prosseguir nos esforços de colocar a saúde ao alcance do povo. Merece um voto de confiança e de aplauso o que tem sido realizado de positivo pela SUS, sendo necessário seu aperfeiçoamento.

Gloriamo-nos da exemplar atuação de nossa Comunidade Carmo-Sion por seu generoso desempenho pela saúde do povo carente, de perto e de longe.
Há décadas, que o zelo pela saúde é marca benemérita de nossa paróquia, graças ao trabalho abnegado de inúmeros voluntários.

Gratidão também às instituições públicas que demonstram sua valiosa colaboração com nossas iniciativas comunitárias.