sábado, 7 de abril de 2012

FÉ NA RESSURREIÇÃO

Ninguém crê sem alguma dúvida que visa aprofundar a fé. Não há exceção. È preciso ver para crer. Sem algum sinal, não é possível consolidar relações, sobretudo as de fé. A razão é simples. Não se trata de crer em ‘coisas’, mas em ‘pessoas’. O núcleo da fé não é uma verdade teórica, mas uma relação de carne e osso a envolver eternos iniciantes. Ali, navegamos nas águas turbulentas da limitação humana frente a perdas e decepções, em ensaios com recuos e avanços. Em Deus vivemos. Abrigados nele venceremos.

“Feliz quem crê sem ver”. Em termos. Crer é sair de si, ampliando os próprios horizontes. Requer-se um impulso que nos mobilize, uma segurança que nos encoraje. Entre nós, a ‘gratuidade’ – mesmo o amor de mãe – precisa revestir-se de algum sinal a nos confirmar. Não se ousa fazer, no escuro, um gesto de entrega, unindo vidas, conjugando interesses e entrelaçando pessoas. Nada mais natural: “Se eu não puder perceber o que mais marca a pessoa, como poderei crer?”. Deus é carne e osso, fragilidade e pujança na História.

Tomé representa os discípulos. Quem sabe, ele era o mais realista. O Mestre, o Amigo do peito, morreu. A turbulência de emoções empurra todos para um esconderijo. Decepcionados e tristes, sentem raiva das autoridades que não quiseram compreender Jesus e o rejeitaram como rebelde suspeito. Agora, os discípulos temem ser ridicularizados. Além do mais, sentem vergonha de seu próprio comportamento. Mostraram-se covardes. Nos sinais, o aplaudiam. No julgamento e na cruz, o abandonaram. O que lhes restará? O confronto com as chagas, o compromisso solidário. Eis o sinal da vitória.

Quando outros nos tornam a vida ameaçadora, fica mais difícil querer bem às pessoas e crer em Deus. Há situações que nos causam vergonha. Preferimos subtrair-nos ao convívio enquanto a decepção e a dúvida nos vão corroendo. Fechados em nós mesmos, trancamos as portas. Quando nos permitimos a tarefa de reavaliar as coisas, lentamente nos desarmamos. Foi o que aconteceu. As mulheres foram mão na roda. “Chega de tristeza! A morte não anulou Jesus!” Um dos nossos, ele ensaiou e representou Deus entre nós!

Um processo se iniciou. O Jesus idealizado - irreal - cedeu lugar ao Jesus real - com chagas - atestando seu devotamento frente ao Pai e a favor das pessoas. Alguém, assim, não é absorvido pela morte. O testemunho de vida – com lições e gestos com grande poder de convicção – tornam Jesus mais vivo que nunca. O sentimento de culpa se evapora sob a chama do amor que o Mestre lhes oferecera. A paz retorna. A coragem se restaura. A mesquinhez se desintegra. A morte... Ora, a morte bem sofrida é garantia de vida vitoriosa.

A dúvida serve para aproximá-los da realidade. Sua pequenez humana se faz ponte de acesso ao grande mistério. Morto o Mestre - o Amigo está mais vivo que nunca. O entusiasmo se renova. Ao tocarem na ferida, rememorando sua solidariedade ímpar, sentem-se redimidos. Uma liberdade estranha toma conta de seus corações. O Espírito de Jesus se instala nos discípulos, com clareza e vigor incomuns. O conjunto da caminhada de Jesus, seu testemunho de vida lançam nova luz sobre a frágil vida humana. Mais que nunca, se reconhecem abrigados no amor divino. Agora, são mais, muito mais que parecem. Estão a serviço da reconciliação e da paz. Testemunhas da Vida.


Deus: mistério da Vida a se fragmentar na criação; nela e por ela, se afirma, sofrendo a dinâmica da mesma que é ele em pessoa. Revela-se como Deus à medida que a criação evolui e as pessoas assumem a vida em uma perspectiva de fé. Deus sempre está no comando, porém sem interferir nem organizar previamente a história nem para socorrê-la milagrosamente.


Basta que seja Deus. Não vos perturbeis. Confiai!


Morte é Passagem.

- = -

TOLERÂNCIA

TOLERÂNCIA – VALOR MAIOR

Tolerância autêntica é pacificadora.
O apelo à tolerância, não raro, conduz à intolerância.


O ‘eu’ moderno com seu direito de ser o que ‘é,’ graças à tolerância, facilmente se torna fator de abuso, até para sua expressão coletiva em grupos, partidos, igrejas. O ideal é enfocar o ser humano como ‘imagem de Deus’, a fim de ser menos ‘eu’ - menos egocêntrico e mais pacificador na construção de relações.

INTOLERÂNCIA COMO RESULTADO DE TOLERÂNCIA.
O apelo à tolerância resultou da crueldade da violência em conflitos religiosos entre mil e seiscentos e mil e setecentos. Cada um devia ter o direito de professar a religião herdada ou escolhida. Trata-se de um dever difícil em uma convivência multicultural e, sobretudo, de pluralidade religiosa, porém evita agressões mútuas. No passado, a duras penas, a‘lei’ passou a garantir liberdade de religião.

Quem a desrespeitar, será apresentado ao juiz. A base do estado liberal é que a democracia respeita, cada vez mais, os direitos dos cidadãos. Estranho é que isto ameaça a tolerância. Daí, as iniciativas para garantir direitos de mulher e homossexuais, de idosos e enfermos, de consumidores, crianças, artistas e animais. Isso, não raro, é acompanhado de desrespeito e agressividade. O apelo à tolerância se reveste, com frequência, de intolerância. Faz lembrar o ditado antigo: “Se quiser paz, se prepare para a guerra”.

Não basta um sentimento de tolerância; requer-se um reconhecimento positivo de pessoas e valores. Se como ‘imagem de Deus’, merecíamos, em alguma época, todo respeito, atualmente precisamos merecer tal direito pelo que mostramos ‘ser’ – gente digna: pensar e decidir com respeito ao que cada um se propõe, sem exigências e influências de fora. Agir, em clima de simples ‘direitos’, não raro tem suscitado sentimentos e ações agressivos. Grupos se defendem, outros os socorrem em vista de um objetivo correto, através de uma luta política. Tolerância tem assumido formas de intolerância.

Por outro lado, ninguém se satisfaz de ser somente ‘tolerado’ por outros; desejamos ser positivamente ‘reconhecidos’, mesmo cometendo algum erro. Antigamente éramos aceitos - em teoria - como criados ‘à imagem de Deus’. É o que devia garantir nossa dignidade. Na modernidade, cada um havia de conquistá-la por - fiel a si - pensar e agir com autenticidade e independência, sem escravizar-se a fatores externos. Atualmente diferenças são melhor valorizadas. Cada um é único e singular, tendo de respeitar tal direito nos outros.

Agora, sou eu que dou formato a meu viver, porém, nem por isso, é uma forma ideal ou melhor. Se, na essência, somos iguais, na existência nos mostramos diferentes. A boa qualidade de meu viver é medida pelo valor das relações que construo, pelo modo como trato o meio. A ‘identidade’ não é algo dado, mas se forma em diálogo com outros e pela inserção na realidade. Reconhecimento da própria identidade por outros é decisivo para o desenvolvimento do verdadeiro ‘eu’. A base de tal reconhecimento é, por sua vez, meu comportamento pessoal, mais do que, como antes, a posição social.

Atualmente, graças ao poder de ‘leis’, o reconhecimento é tanto mais importante. A recusa do mesmo fere gravemente as pessoas, como mulheres, crianças, negros, homo´s e deficientes. É algo como opressão e intolerância. Por mais que as pessoas – únicas - continuem diferentes, há fatores que valorizam todos, sem distinção. Tais fatores reclamam nosso respeito. Mais do que simplesmente nos tolerar – tolerância como dever ‘legal’ é pouco - temos de nos respeitar, honrar e até apoiar. Tampouco é suficiente uma simples tolerância - fruto de nosso ego adulto - como mérito pessoal. Porém, mais do que mero fruto de um direito, tolerância há de ser uma ‘dádiva’; do contrário passa a ser algo insuficiente, inautêntico. Até pessoas que dificultam a vida alheia merecem tolerância. Se devemos aprender a perdoar outros, para com nós mesmos temos de ter paciência nas falhas que cometemos. De fato, tolerância tem tudo a ver com a capacidade de ‘perdoar’ outros e a si mesmo.

Já, no século 16, Erasmo dizia a Lutero: A tarefa de sábios não é discutir, mas repartir sabedoria, partilhando a palavra. Tolerância é mais do que um direito ou dever, mais que um meio em vista de algo diferente. Acima de tudo, tolerância é própria dos ‘amantes da paz’. É uma virtude. Porém, o que me faz amante da paz? O ‘eu’ não há de ser sua própria medida; ou seja, o eu não é referência de aprovar ou desaprovar o que ‘o outro’ há de ser. Evidente, há pessoas incapazes de boa convivência. Em tais casos, a ordem ‘jurídica’ há de intervir e medidas devem ser tomadas. Como exemplo, temos a invasão de um país por outro com dominação ampliada, e também terroristas suicidas ou incendiários e agentes poluidores. Nesses casos não cabe intervir pessoalmente. Não me posso fazer medida de mim, reduzindo o outro à ideia ou à medida que me convém - do que eu aprovo segundo meus conceitos, minha verdade, minha família, minha religião, minha igreja – meus valores ou visão de vida.

Para me tornar amante da paz, é claro que tenho de conter meu pequeno ‘eu’; e, ao me esvaziar de mim, me faço mais aberto à realidade, mais receptivo frente ao outro, aos ‘diferentes’. Compete a mim olhar ao redor, sem logo exclamar: ‘Que beleza!’ ou ‘É crime!’ Só dessa forma, me protejo contra julgamentos apressados e parciais – e, portanto, contra intolerância. Farei bem por me inspirar na verdade de que Deus faz o sol surgir sobre bons e maus. O mesmo, me cabe, seguindo Jesus: oferecer uma nova orientação aos que vão ao extremo. É preciso me convencer que nem sempre disponho de uma reação adequada. Isto, de fato, é o início do amor à paz.

Longo pode ser o caminho para, dessa maneira, soltar-me de mim. Nossa fé cristã, em tempo de Páscoa, nos pode inspirar. Jesus precisou cair de joelhos, esvaziar-se de si, abraçando a morte na cruz. Por isso – lembra São Paulo – Deus o exaltou para que, em nome dele, todo joelho se dobre. Segundo Nietsche, Zaratustra falou: “Inicia como um camelo: paciente animal de carga, a socializar-te na própria cultura. Transforma-te, assim, em um leão: de tudo que aprendeste como camelo, toma uma distância crítica, superando o que já não queres aceitar por não corresponder a teus desejos e ao que não desejas para outros. Dessa forma, passas a criar teu próprio mundo e, juntamente com outros, quem sabe, ‘nosso’ próprio mundo. Isto implica algo conflitante e nada fácil: dar a si mesmo o direito de criar ‘novos valores’.

Simplesmente limitar-se a protestos, isso ainda não é heróico nem saudável ou construtivo; não passa de intolerância. Quando o leão chega a concluir esta verdade, se inicia a transformação em criança. Se não vos transformardes em criança, não herdareis o Reino do Céu. Supera-se o rancor contra o mundo e si mesmo, e sela-se a paz com a vida. Reconhece-se que até o sofrimento, que fazia desvalorizar a convivência, pertence ao coração da vida. Nenhuma forma de sofrimento justifica condenar o mundo. A criança em nós provoca um sim a tudo que nos tem acontecido; e reconhecemos: ‘Eu tenho batalhado a fim de, um dia, possuir um coração acolhedor e ter as mãos livres para abençoar’.

O papel do ‘eu’ amadurece em um modo de ser, inerente à essência da tradição religiosa. E eis que – em vez de relativizar verdades – crescemos em uma abertura respeitosa frente ao mundo, tornando-nos capazes de uma amorosidade de paz e de proveitosos cuidados em prol de outros. Apropriamo-nos de uma nova e sólida perspectiva que sintoniza nossa vivência do mundo com uma visão mais clara, tanto da realidade como da vida interior. Enfim, somente quando nos esvaziamos de nossa pequenez - deixando o divino renascer e evoluir em nós – liberta-se a ‘imagem de Deus’ em nós. Torna-se, então, possível de adotarmos amorosidade, gentileza e disponibilidade amiga. Se tolerância ainda não é pacificação, pacificação é sempre tolerância.
- = - = - = -

(Fonte:Ilse N. Bulhof, Ware tolerantie is vredelievend,
em SPELING, 2/96, pp 21-26)

sábado, 31 de março de 2012

ESPIRITUALIDADE DO LIMITE

Em natureza e cultura, o que semeamos ou plantamos, tudo cresce, permanece e se desfaz dentro de limites. Gostaríamos que fosse sem limite o ‘tempo’ da infância, da velhice e de outras idades? Saberíamos tolerar um ‘espaço’ sem limite? Desejo suspeito que ninguém daria conta de cultivar sem prazo. É o ‘vir e ir’ que dá viço ao existente, sabor ao viver e conviver. Tudo se inicia e, um dia, se encerra. Também esta reflexão só vai prestar serviço nos limites dessa mesma dinâmica. Esta é a verdade: fator de equilíbrio e de progresso é o ‘limite’.

No equilíbrio de natureza e cultura, tudo e todos se apresentam relativamente ‘equilibrados’ dentro dos limites que lhes cabem. Até o maior milionário e o pior ditador, o papa mais aplaudido e o presidente mais combatido, reconhecerão, um dia - e terão de assumir - seus limites. E mesmo que seja tarde, também isso pode ter algum proveito. Eis o que garante, basicamente, a harmonia no existir. Deslizamos em cima de ondas, ora em seu início ou crescente, ora em seu topo ou decrescente; e isso, um dia, em seu término que, por sua vez, dará lugar a algo ‘novo’. Continua válido o antigo ditado: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade.

De fato, impérios se foram, reinados se desintegraram, terras apareceram e se desintegraram como outras surgiram. Nada ou ninguém sempre existiu nem poderá durar para sempre. ‘Tudo com limite’ é a regra do ser, do fazer e do usufruir. A necessidade de um ‘limite’ vale para natureza e cultura, para fé e descrença, para amor e ódio, para trabalho e descanso, para sol, estrelas e terra, para vida e morte. Se em algum setor há exagero – medida desrespeitada – alguma represália haverá, uma vez que a realidade, complexa, está globalmente interligada.
. - . - . - .
O que nos inquieta é o imprevisível-incontrolável como inerente ao ‘limite’. Quanto ao ‘tempo’ não controlamos sua ‘medida’ nem seu ‘momento’, que ora nos detêm, ora nos impelem ou, então, simplesmente nos deixam passar. Quanto ao ‘espaço’, é mais fácil avaliarmos o mesmo, se seu limite é de ‘abertura’ ou de ‘fechamento’, de repulsa ou de acolhimento. Segundo essa situação, buscamos segurança, nos ‘detendo’ no lugar ou nos dirigindo ao que está ‘além’. Assim, a porta do escritório, ora nos abriga onde estamos, ora nos convida para ir adiante. Portanto, somos nós que podemos ‘dispor’, permanecendo onde estamos ou nos dirigindo para fora. Bem mais complicado é o limite do ‘tempo’. Este tem algo de ‘ameaçador’, no que dura - e se ‘impõe’ - como no que ‘foge’, fazendo-se limiar-convite ou direcionamento ao ‘novo’. De fato, à medida que o tempo avança, ele pode libertar, enriquecer ou pode vir qual assaltante na noite. O limite do tempo, portanto, se subtrai ao nosso perfeito ‘domínio’.

Somos capazes de usar o tempo, ajustando seu limite, porém sempre de novo o mesmo nos escapa. Tem algo da correnteza do rio: podemos acompanhá-la, mas nunca deixa de correr à nossa frente. Brigamos também com o relógio, cujo tempo sempre nos dribla, prosseguindo sereno e teimoso, nos absorvendo. O passado aumenta, o futuro encolhe. Aqui, não há segredo para dar uma escapada ou para se enganar. Nascer é envelhecer, viver é morrer. Tempo digerido é morte abraçada. Um eventual remédio para escapar seria, por sua vez, um tormento, pois tempo sem limite seria a tortura da ‘mesmice’.

A medida é sempre e universalmente da responsabilidade de todos. Também no caminho da espiritualidade se impõe a variação do limite como – em determinadas circunstâncias - o sol perde seu fulgor e as estrelas seu brilho. Por ‘falta de limites’, colhemos enfermidade, injustiça, guerra, desequilíbrio ecológico - inundações, seca, fome - desrespeito e toda forma de servidão. Resultam do exagero em posse ou carência, em poder ou escravidão, em fraternidade ou injustiça. No auge da floração, se anuncia o limite. O ruim é haver antecipada interrupção, como em formas de desentendimento, violência, desastres e surpresas climáticas. É inevitável: o dia virá em que o telhado cairá. Porém, o modo do desfecho, em nada, nos é previamente comunicado.

Ausência de surpresa é ‘monotonia’, sem lágrima no olho, sem chama no coração. Tempo sem limite é alegria sem surpresa e velhice sem inovação; é uma parábola sem conteúdo e sorriso sem expressão. Apesar de tudo isso, sonha-se com o tempo ‘sem limite’, porém como não há nenhuma narrativa sem fim, para todo exagero está reservado um desfecho negativo. Grudado na alma está o desejo da imortalidade, ao mesmo tempo que apavora por seu vazio. De fato, o sonho do ‘sempre além’ pode privar da atração do ‘para sempre’, do eterno. É preferível substituí-lo pelo momento indomável do ‘agora’ – em que vivemos como simples flor. O limite universalmente imposto é convite para nos exercitarmos em uma liberdade e solidariedade responsáveis.

Se no auge da floração, se anuncia o limite, uma certeza se impõe: ‘O amor de Deus é sem limite’, como também nosso aperfeiçoamento espiritual há de sê-lo. O bem-estar de tantos, como também suas necessidades, nos conscientizam de limites. Dessa forma, se nas ‘relações’, agora, somos convidados a ‘obedecer’ (- fazer-se atento, disponível-) uns aos outros, é no sentido de abandonarmos parcialmente o ‘poder’, investindo-o melhor na ‘autoridade’ (-augére= fazer crescer-). Nesse contexto, o limite se coloca serviço do ‘bem’, o que resulta em benefício de nossa convivência. Muda a relação, aperfeiçoa-se o efeito.

Enfim, o que nos resta é aprendermos a nos deixar seduzir pelo ‘limite pacificador’, quer trabalhando ou descansando, quer aniversariando, brindando ou viajando. Viagem é a vida, somos nós o ponto de partida e de chegada.

sexta-feira, 16 de março de 2012

POR FALAR DE DEUS ...

Edmundo, criança ainda, foi abandonado pela mãe e maltratado pelo pai. Tornou-se morador de rua, em meio a toda forma de violência.

Certo dia, sentou ao lado de um mendigo em um velho banco. O ‘senhor Leo’ se fez amigo e o instruiu na capacidade de ler. Bem mais tarde, reconheceu que ‘sentou ao lado de Deus’. Pouco a pouco, ele se reconciliou consigo. Aprendeu que o sofrimento, sendo uma lembrança, nunca deve ser uma ‘ferida’.

Edmundo se fez amigo da história de sua história. Esquecer o passado, isso não conseguiu, mas cresceu em dignidade interior.

Mais tarde, já casado, assumiu a missão de testemunhar o milagre de sua vida em escolas e cadeias. Seu testemunho ajudou muitos para abandonar o mal e seguir pelo caminho da compaixão.

Mostrou que “Deus é maior que nosso coração” (1 Jo 3,20).

Todos temos uma centelha de Deus em nós. Nas comunidades da Igreja e nas instituições estatais, passamos a abusar facilmente do poder quando nos movemos em estruturas hierárquicas e nos projetamos como pessoas intocáveis.
- = -

Se o sentimento é a linguagem da alma, quem sabe, Deus é a pele de minha emoção. A todo momento, ele me testa no confronto com desafios que me envolvem, questões que me perturbam.

Sinto uma presença amiga que, sorrindo, me confirma e, rindo de si, zomba amigavelmente de mim.

Deus... Minha inspiração ele é. Ressoa na superfície e no íntimo do que passo e sinto, temo e acolho, avalio e realizo.

Sim, é Deus, em mim, que aprecia, critica, elogia e relativiza o tanto que faço e deixei de fazer. Até parece que ele é Anjo de Guarda que, escondido e atento, me socorre, adverte e fortalece.

Sua luz aparece no que há de nobre em mim e no que, às vezes, avalio como dispensável. Parece que , em mim, há algo de Deus que, volta e meia, ri de si e foge de mim. Convence-me de que estou a serviço dele.

Um tanto assustado, o sinto brincar comigo para incluir outros em seu abraço. Aí, querendo ou não, só me resta valorizá-los.

Sem nada fazer – assim me parece – tropeço em Deus e, entre lágrimas e risos, ele me faz sentir minhas limitações e meu valor.

Sem o perceber, me vejo sorrindo e sinto um afago seu. Reconheço o quanto ainda sou o que não devo ser. Mergulho dentro de mim e pisco para Deus; e lhe dou razão pelo quanto ainda se frustra por investir tempo e energia em pessoas como eu.

Só me resta perguntar: Será que eu... sou eu mesmo? Será que Deus é, de fato, o que eu imagino?

Não raro, me sinto em um tipo de circo, em que há leveza em clima de brincadeira. Mas aí vem outra pergunta: O que ele mais quer é que eu aprenda a brincar?

Vai ver que o Reino é dos que cultivam jocosidade. Deus, então, é o que há de mais sólido e de mais leve em mim, embora paradoxal.

Urge que, no fim do dia, eu reconheça - após algum êxito e fracasso - “FOI-SE, ESTÁ FEITO; É BOM ASSIM”. Em paz, concluo: ‘Pronto’.

Eis algo essencial: Em vez de ir em busca de Deus, bem farei em me deixar encontrar por ele. Não estou sempre grudado a seu mistério? Mais do que invocá-lo, convém reconhecer-me
acolhido em seu amor.

Em vez de eu mesmo me colocar sob seu olhar, basta sentir-me envolvido por sua ternura. Por que gastar energia para andar na sua presença? Antes, eu me sinta como um nenê colado ao peito de sua mãe.

Afinal, Deus é o lado de dentro de mim e também o que se agita do lado de fora. Ele é qual convite: “Por favor, me acolhe como mistério maior que te impregna e envolve”.

CAMPANHA DA FRATERNIDADE

SAÚDE PÚBLICA

Todo cidadão tem direito à saúde. Desde o início, cristãos se fizeram promotores da dignidade de todo ser humano no setor de saúde. Com o passar do tempo, o poder público assumiu como um dos seus objetivos primordiais: cuidar da prevenção e promoção da saúde. Em nossos dias, lamentavelmente, o proselitismo político e religioso ainda tende a transformar serviços de saúde popular em interesses eleitorais e institucionais.

Além disso, a indústria médica, não raro, visa resultados financeiros e particulares. Ao mesmo tempo, o poder político usa os meios de acesso à saúde –para fins eleitorais (ambulâncias). Acontece também que a autoridade política zera o déficit público em vez de investir na saúde do povo - objetivo essencial.

Na presente Campanha da Fraternidade, o objetivo é pressionar comunidades e indivíduos para zelar pela saúde, conscientizando e estimulando o poder público a prosseguir nos esforços de colocar a saúde ao alcance do povo. Merece um voto de confiança e de aplauso o que tem sido realizado de positivo pela SUS, sendo necessário seu aperfeiçoamento.

Gloriamo-nos da exemplar atuação de nossa Comunidade Carmo-Sion por seu generoso desempenho pela saúde do povo carente, de perto e de longe.
Há décadas, que o zelo pela saúde é marca benemérita de nossa paróquia, graças ao trabalho abnegado de inúmeros voluntários.

Gratidão também às instituições públicas que demonstram sua valiosa colaboração com nossas iniciativas comunitárias.

quinta-feira, 1 de março de 2012

Dialogando com Deus

Se o sentimento é a linguagem da alma, Deus é a pele de minha emoção. A todo momento, ele me testa no confronto com tudo e todos que me envolvem. Sinto uma presença amiga que sorri para mim e me questiona, me confirma e zomba amigavelmente de mim. Deus... Eu é que não o sou; é ele que treme na superfície e no íntimo de tudo que passo e sinto, avalio e realizo. Sim, é Deus, em mim, que aprecia, elogia e relativiza o tanto que já fiz ou deixei de fazer. Até parece que ele é a sombra de mim, meu respirar em que o sinto reproduzido.

Sua luz aparece no que há de nobre em mim e no que, às vezes, avalio como ridículo. Parece que sou algo de Deus que, volta e meia, ri de si e foge de mim. Outras vezes, ele se sufoca em mim, ri de si para me convencer que estou a serviço dele para – desamparado - incluir outros em seu abraço, a fim de acolhe-los, valorizá-los e entusiasmá-los.

Sem nada fazer – assim me parece – tropeço em Deus e, sob gargalhadas, ele me faz sentir meu valor, minhas limitações, meu lado paradoxal. Sem o perceber, me vejo sorrindo e sinto um afago seu, mostrando o quanto ainda sou o que não devia ser. Aí, olho para outros, pisco para Deus e lhe murmuro o quanto ele ainda perde tempo com pessoas como eu.

Só me resta perguntar: Será que eu sou eu mesmo e será que Deus é, de fato, o que é? Não raro, me sinto em um tipo de circo, onde há perda de tempo. Mas aí vem outra pergunta: Será que eu ainda não aprendi a brincar? Vai ver que o Reino é dos que cultivam jocosidade. Este tem tudo a ver com sentimento e experiência que, por sua vez, usam a palavra como invólucro, qual casquinha. O fruto mesmo é a experiência, o sentimento.

Verdade é um esforço de tomar posse de si em uma realidade complexa. Ela gera em nós o respeito pela diversidade, o que – por sua vez – nos conserva em harmonia com o meio.Verdade implica a capacidade de diálogo para dentro e para fora de si, em clima de atenção e paz.

A verdade nos confere a posse de nós mesmos e abre espaço para termos acesso aos outros. Ela reduz o autocentrismo e acresce a receptividade diante dos desafios do diferente. A verdade é nunca unilateral e monopolizadora. Ela é braço estendido à alteridade. É guerreira, é puro confronto que nunca se dá por satisfeito, porque sua fome é insaciável.

Verdadeira é a pessoa que nunca se reconhece dona da verdade, por mais que a abrace. Por isso, ela questiona, busca, litigia, reformula, nunca se faz ponto final, é sorvedouro insaciável. A verdade é sopro sem arcabouço.
- = -
Frei Claudio van Balen

JEJUM

Q U A R E S M A

JEJUAR

DISCIPLINAR O CORPO É CUIDAR DO ESPÍRITO

INTRODUÇÃO
Por longos séculos, reinou um dualismo amargo na tradição cristã, considerando corpo e alma concorrentes. Herança infeliz de Platão, transmitida por teólogos. Como resultado herdamos práticas e hábitos de imposições e renúncias, de privações e castigos com menosprezo para corpo e sexualidade. Vida espiritual era algo oposto ao material - semente do mal. Quantas aberrações com frutos amargos neste medo do corpo, o que causava cãibra interior a castrar o impulso vital. Toda forma de gozo era malvisto e não convinha a uma modalidade espiritual de viver. O jejum, simples dever, servia mais para reprimir o corpo do que para elevar o espírito. Ameaçava-se a saúde, continha-se o espírito; distanciava da terra, alienava do céu. (Perigos: prestígio, vaidade, poder, ostentação...) (Quarenta hs- sec.16, Itália...)

SER CORPO
Jejum valoriza o corpo. Quem se assume na própria condição corporal, é capaz de desenvolver-se como pessoa. Tal atitude implica um equilíbrio que, na medida adequada, valoriza os dons corporais, sem se escravizar a eles e sem usá-los em prejuízo para si e para terceiros. Nesse sentido, o gozo mais profundo carece, sempre, da medida certa. Desprezo e fruição exagerada desumanizam, pois dificultam ou impossibilitam a abertura frente à realidade global do viver. Em uma perspectiva ecológica, longe do dualismo com sua oposição, o corpo é a base da vida espiritual; força magnética a unir exterior ao interior, material a espiritual. Mais do que ter ‘irmão burro’, eu sou meu corpo, com integração e harmonia entre imanente e transcendente. (Jesus: Mt 6,17s; Mc 2,19s; Atos 13,2...)

BOM CUIDADO

O jejum, bem praticado, serve para purificar os intestinos, o sangue e os líquidos corporais, o que possibilita participar de modo mais intenso da vida. Tradicionalmente se recorre também a banhos, movimentos corporais, esporte, ginástica, água, chás de ervas, drenagem linfática, massagem, meditação, celebrações, diálogos, etc. O resultado é leveza e equilíbrio corporais e vitalização de energias espirituais com maior liberdade e lucidez, o que possibilita profundidade de viver, expondo a pessoa à luz interior e exterior. O que os olhos são para a realidade exterior, o jejum o é para a vida interior (Gandhi). O jejum faz respeitar direitos e limites do corpo, em sua missão. Quem maltrata o corpo – por recusa ou sobrecarga - deturpa relações e foge de si mesmo e, portanto, dos outros.

OBJETIVO

Desde a mais longínqua antiguidade, o jejum sempre foi avaliado, praticado e institucionalizado como instrumento eficaz para equilibrar o corpo, purificando o espírito. Variavam as motivações das práticas do jejum, chegando a ser ambivalentes entre aperfeiçoar o equilíbrio, expiar culpa, aplacando - como penitência - a ira divina e aprofundando a solidariedade com os pobres. Por muito tempo, a prática do jejum foi objeto de imposição - dever sob pena de pecado- sendo o corpo visto como algo perigoso e hostil. O jejum se presta peculiarmente para cultivar tanto interioridade com exterioridade, promovendo energia espiritual para vida com boa qualidade. (Preparação, expiação, proteção, contemplação...)

SOLIDARIEDADE

O jejum educa para um modo menos poluído de lidar com a natureza - que somos. Ajuda para se equilibrar o impulso de exercer simples domínio para, mais solto, autônomo e solidário, confiar-se ao dinamismo da própria vida. Por autocontrole e abertura, é saudável tomar distância de uma postura consumista, exercitando-se no gesto de adiar desejos e esperar. Isto suscita senso de dádiva com gratidão e estimula partilha fraterna, solidarizando com os que passam carência em um contexto de pobreza. O exercício de jejuar, além de efeitos preventivos e curativos, se faz também protesto contra um mercantilismo que escraviza, criando uma multiforme dependência.

INTUIÇÃO BÁSICA

Graças ao jejum, conscientemente abraçado, o diafragma se abre, facilitando um novo modo de sentir, de cheirar, de ver e de se relacionar. Torna-se mais autêntica e mais plena a fruição, aumentando o prazer de comer e beber, de crer e orar, de silenciar e conviver. E nesse seu modo renovado de ser, a pessoa se apropria da intuição básica de que se harmonizam, a serviço do todo, luz e escuridão, maré-cheia e maré baixa, abundância e privação, alegria e dor, vitória e frustração, aprovação e desacordo, proximidade e distância, interioridade e exterioridade. Tal sabedoria gera bom senso, jovialidade, esperança, criatividade e um élan vital imbatível a serviço do prazer sem a servidão do consumismo. Trata-se da inteligência corporal, mais importante que a emocional, porque, aguçando os sentidos, se faz fundamento de outras formas de inteligência.

LIBERTAÇÃO

Ao praticar o jejum, somos convidados a nos deixar carregar por uma força interior que integra, solidariza, pacifica e alegra. Sintoma do bem viver, o jejum é uma ponte segura para o encontro consigo, com a vida, com o próximo, envolvidos pelo mistério maior que é Deus. Este nos quer ver como filhos e amigos prazerosos. É no prazer que está a plena realização do viver. Ora, o fundamento do prazer está ancorado no corporal: a alegria de provar, de sentir, de saborear no conviver. O prazer de viver se faz penhor de alegria. Aqui, se encontra uma força libertadora que, qual vaso comunicante, conduz seus efeitos positivos para outros setores.

RUMO À LUZ

Nunca houve tantas formas disponíveis de prazer, na área de arte e música, de literatura e espiritualidade, de escultura e dança, através de imagens em TV, vídeo, DVD e internet, etc. Há um leque inesgotável de possibilidades. Quem sabe, em um futuro próximo, comer e beber já não precisarão tanto de consumismo. Por outro lado, a sobriedade sempre há de estar a serviço do prazer. Quem aprendeu a fruir bem, se torna pessoa aprazível. Jejuar lembra: nosso destino é sermos pessoas aprazíveis, para nós mesmos e para outros. Só dessa maneira podemos estar abertos para o que temos de ser, receber e fazer, na vida que levamos. Jejuar se faz caminho para luminosidade, para vitalidade de corpo e mente em boa convivência e na alegria da fé. Eis alguns aspectos valiosos de nossa Quaresma.
* * *
Frei Claudio van Balen